domingo, 31 de julho de 2011

Contrato

Meio a meio. Combinados? Claro! Então, assinem aqui nessa linha. É só isso? Não! Agora, sim, você já pode beijar a noiva.

domingo, 24 de julho de 2011

Amor pós-moderno

Joana dizia eu te amo; Carlos dava-lhe somente flores. Um dia, o amor cresceu. Hoje já tem 6 anos e está na primeira série.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Faculdade

Quando ele era criança queria ser médico. Passou a vida a estudar as pessoas. Fez-se Dr. da alegria.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Sonho interrompido

Ela queria ser cantora. Cantou pra família, pro namorado. Hoje canta pra fazer mimi o bebê no berço.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Me perguntaram se sou confiável

Me perguntaram se sou confiável. Digo o seguinte – com um pouco de arrogância, eu sei: Não confie em ninguém que manipula as palavras. Se esse alguém é capaz de enganar as palavras, com certeza também é possível que engane as pessoas; estas, têm sentimentos; as palavras não, são racionais.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Eu queria poder matar alguém

Eu queria poder matar alguém, mas não consigo. Isso faz de mim um ser humano ou uma pessoa melhor? A resposta é simples: não! Se tenho o desejo, é porque por 1 minuto na minha vida pensei que o mundo poderia ser melhor se aquela pessoa não existisse. Pra minha felicidade incompleta, somente a retirei do meu dia a dia. Está bom! Já é um começo. Deletei-a da minha vida virtual, mas a casa e o rosto continuam nos mesmos lugares.

O jeito, como disse Bandeira, é sanar todas as dores dançando um tango argentino. No entanto, como sou nacionalista, proponho um le grand finale mais brazuca: toca aquele samba ai, e vamos cair na avenida.

domingo, 24 de abril de 2011

Distanciamento

Lembro-me de quando era pequeno, de visitar a madrinha de minha irmã, que eu chamava de tia, e que morava na cidade vizinha. Entre a minha cidade e a cidade dela havia duas vilas. Naquela época, e até pouco tempo atrás, eu podia jurar que esses dois bairros se distanciavam em quilômetros um do outro. Eu ficava cansado só de imaginar em ir de uma ponta a outra desses dois conjuntos. Eu ficava cansado só acompanhar meus olhos irem de um ponto ao outro. Para mim, era tão longo o trajeto que, de dentro do ônibus, atravessar as duas vilas parecia uma longa viagem, um mar sem fim.
No entanto, hoje vejo e percebo que o trajeto não é tão longo assim. Até construíram uma ciclovia que liga os dois conjuntos habitacionais. E, com isso, chego a pensar como as distâncias estão desaparecendo, estão sumindo dos mapas. Não existem mais barreiras. Não existem mais divisas. Não existem mais cercas. Tanto a telefonia como a internet, e também toda e qualquer revolução tecnológica, provam o quanto estamos perto uns dos outros, o quanto oceanos e terras não separam ninguém. Contudo, neste momento tiro o chapéu aos grandes navegadores da história, que mostraram que o mar não é o limite, que o mar vai além da dor, ultrapassa o Bojador.
Ainda assim, depois de saber que estamos cada vez mais próximos, ao mesmo tempo estamos distantes uns dos outros, como nos grandes centros urbanos, nas metrópoles, onde somos capazes de viver cercados de pessoas e ainda nos sentir solitários, vazios; como o banhado sem águas e que não alaga; como uma fenda que não se fecha nunca, mas que luta e teima em se fechar, mesmo tendo tudo aos seus pés, às suas barras, às suas margens e em curtos espaços de tempo. Mesmo tendo Orkut, Facebook, Twitter, MSN etc.
Na altura dos meus quase trinta anos carregados em minhas costas, gravados em meus olhares e escorridos em meus cabelos, descubro que há algumas soluções caseiras para certas angústias. Entretanto, alimentamos outras angústias, e com isso desconheço a cura – ou o termo seria terapia, que está na moda? – para resolver problemas modernos, como o distanciamento que, ao passo que diminui, também aumenta entre nós e dentro de nós uma fenda, um buraco maior e mais vazio ainda, um banhado: a solidão, a distância sem medida – desmedida.




Adams Alpes
São José dos Campos, 2011.

micro-conto

A construção


Água. Areia. Cimento. Cal.
Baldes. Pincéis. Água. Cal.
Na casa, o caos.





Adams Alpes
Caçapava, 2011.

domingo, 27 de junho de 2010

ENTRE UMA PIZZA E UMAS LATINHAS DE CERVEJA

Acho mesmo que a vida é recheada de pequenos atos. A mim, cabe escolher a cobertura. Você deve se perguntar agora o porquê de começar essa crônica falando de comida. Pois é, escrever e viver estão ligados ao preparo de um prato, a uma receita. Escrever e viver são receitas, mas, em alguns momentos, as pessoas esquecem ou não aceitam receitas de terceiros e resolvem improvisar suas próprias receitas, chegando a matar, cair em desespero, chorar por coisas que aparecem mascaradas de coisas ruins e que nos enganam com fisionomias toscas e grandiosas, mas que não passam de pequenas coisas, somente pequenas coisas, transitoriedades. Para piorar, algumas dessas pessoas chegam até a achar que pode ser o fim do mundo, que o túnel da boa esperança está sendo fechado por uma enorme pedra que sufoca tudo, deixando tudo negro, tudo apertado, tudo irrevogável.

Eu resolvo todos os meus pequenos atos com outro pequeno ato, tão simples quanto falar um oi em um dia ensolarado ou dizer bom dia para as pessoas que cruzo no caminho ao trabalho. Resolvo uma pequena coisa como, por exemplo, uma conta bancária no vermelho, tomando uma latinha de cerveja. Noutro dia fui ao supermercado e, ao sair, deixei a pizza cair com o recheio para baixo, sendo sugada pelo chão. Na mesma hora, a minha irmã me disse que os recheios são atraídos para o asfalto, pra o chão, para baixo. Fiquei puto da vida, mas também resolvi o problema de forma simples: tomei outra latinha de cerveja. Não deixei uma simples pizza me levar com ela ao chão, me levar para baixo. Isso também tenta acontecer quando meu time perde, mas lá vou eu até a geladeira, pego uma latinha de cerveja e resolvo tudo com alguns pequenos goles desapressados. Até mesmo uma dor de estômago, que me pegou outro dia, deixo boiando no meio de uma latinha de cerveja. E quando menos percebo, lá estão todos os problemas sendo levados pela água, malta e cevada. É, e neste caso, literalmente levados pela água.

Assim, vou pra cama. Durmo e acordo pronto para mais uma maratona de azar, de pequenas coisas me atormentando no ouvido, querendo me assustar e vestindo uma máscara maior do que podem suportar, mas, por uma fração de segundo, lembro que a vida é recheada de pequenas coisas e que não farei dos minutos de sono uma pequena parcela do meu dia, já que, no final, posso escolher a cobertura.


Caraguatatuba, 2010.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

MARÉ CHEIA

Cresci pescador, meu pai me ensinou assim, não é profissão. E, enquanto meus amigos ficavam impressionando as menininhas da escola e passavam o dia todo com os olhos grudados na tela do computador, eu navegava para o meio do mar com meu pai, ter contato com os animais, a natureza, e controlar meus medos. Ainda lembro quando contava as marés, contava as ondas e suas ressacas. Eu também contava as marcas na areia, que mudavam diariamente por conta do mar. Quanto dei por mim, estava pescando no meio da imensidão azul, sozinho, com a barba grisalha no rosto que um dia já foi de menino, e a vaga lembrança que levo comigo é a de meu pai me ensinando a fazer o que faço hoje: a pesca.

Nunca fui muito dado aos estudos. Enquanto meus amigos estavam na escola, eu estava no oceano tendo outras lições, aprendendo a língua dos peixes, a linguagem do das ondas. Mesmo assim, pedia para que meu filho fosse um homem diferente de mim, queria ser para ele o que meu pai foi para mim: um herói, por isso o incentivei a frequentar a escola, a estudar e fazer uma faculdade, a falar a língua dos homens, ser alguém na vida, mas sem esquecer de onde veio, de onde é a sua origem: do mar, porque além de ser a minha vida, também foi onde conheci a mãe dele. Nós dois éramos muito jovens, tínhamos apenas 11 anos de idade. Ainda lembro o dia em que a vi pela primeira vez como se tivesse sido ontem. Eu estava chegando à praia com meu pai, quando avistei uma garota correndo solta, de braços abertos, ao lado do irmão e do pai nas areias. Eu vi o seu olhar de lado, e também não tirei os olhos dela. Também vi os cabelos dela se fixando no meu olhar, enquanto navegavam no ar, banhados pela maresia e que, revoltados, não obedeciam aos seus caprichos. Depois desse dia, não a vi mais. Só voltei a reencontrá-la anos depois, quando contava com 19 anos. Achei que não se lembraria de mim, mas lembrou. Conversamos. Nos beijamos e, alguns meses depois, começamos a namorar. Seis anos mais tarde, casamos. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. O pescador e a princesa.

Além da minha esposa, no dia do meu casamento, meu pai foi marcante para mim, assim como foi até o seu último suspiro. Antes de abraçar a morte, chamou-me ao hospital. As lágrimas começaram a correr do meu rosto ao vê-lo na cama, entrevado, com olhos pregados no teto. Aposto que se imaginava no mar. Antes de fechar seus olhos para a eternidade disse que tinha muito orgulho de mim, que era para cuidar bem de minha mãe e de toda a nossa família, e para que eu conversasse todos os dias com o mar, e ainda afirmava: ele está lá, não deixe de falar com ele; agradeça-o sempre, agradeça-o... Não deu tempo de perguntar ele quem, e sai do leito aos prantos. O enterro foi do jeito como meu velho pai queria: ao mar, com as cinzas navegando nas espumas das ondas, sendo oferecidas para os peixes que sustentaram nossa família durante anos e anos.

Uma semana depois, peguei meu barco e o puxei para a beirada da praia. Olhei para o horizonte, respirei fundo, abaixei a cabeça e fugi para o mar. Fiquei o dia inteiro, e nada. Nem um peixinho, nenhum camarão. E assim se repetiram os dias, semanas após semanas. No final do mês, eu estava em alto mar, sendo empurrado pela maré, quando me lembrei de meu pai e de como seria diferente a pescaria se ele ainda estivesse comigo. Lembrei das nossas últimas palavras, que ressoavam em meus ouvidos como uma música de marinheiro. De repente, tive um estalo. Meus olhos pararam no horizonte, mas não estavam ali. Levantei, fechei meus olhos, inclinei a cabeça aos céus, levantei as mãos e comecei a rezar, agradecendo por tudo, mesmo sabendo que fazia semanas que voltava com as mãos vazias. Depois de alguns minutos, não aconteceu nada. Nenhuma imagem, nenhum cheiro, nenhum som. Olhei para todos os lados e não vi nenhum camarão saltando e muito menos algum peixinho rondando meu barquinho. Sentei decepcionado com as minhas orações e do milagre que esperava e que não veio. No final do dia, comecei a puxar as redes e percebi que algo estava diferente. Com muito esforço eu suava enquanto puxava a primeira rede e, com muita dificuldade, consegui enxergar os peixes e camarões que enchiam a minha rede de ponta a ponta. Ao terminar todo o trabalho e separar em baldes os peixes dos camarões, dei partida no motor e, virando o rosto para trás, pude ver a imagem de meu pai. Ele estava lá, olhando para mim, velando-me com um sorriso que demonstrava estar em algum lugar bom. Agradeci, continuei com a minha partida em direção à terra firme e despedi-me com um sorriso e uma aceno tímido.

Não tive dúvidas. Para mim, meu pai era a pessoa de quem ele tanto falou no dia de sua morte e, antes dele, seu pai, e assim por diante, como uma tradição seguida pela família, mas que não contou para não me assustar, por eu ser pequeno na época. Diferente de meu pai, contei a história ao meu filho, que estava distante de mim, mas que depois se aproximou e começou a pescar comigo, levando a pescaria a sério, como se cada vez que embrenhássemos o mar fosse a última. Quando meu filho completou 18 anos, ele embarcou no ônibus para a capital, enquanto eu estava aos prantos, para ingressar na faculdade que tanto procurou durante a adolescência e disse as seguintes palavras: pai, não se preocupe, sempre voltarei para poder pescar com você, porque pescar para mim é uma maneira de reencontrar o vovô, a minha família, você, a minha origem e também de reencontrar a mim mesmo.